Tinha medo de parar. Parecia impossível.
Empurrei o projeto com a barriga por muitos anos. O doutor disse que precisava parar de bater nele; continuei mesmo assim. Com medo, mas continuei por mais um tempo.
As coisas começaram a piorar. Pequenos sinais no início: irritação na pele, tremores, exames alterados…
Depois foi o fundo do poço. Gastava tudo que tinha, chamava por companhia no meio da noite, e os exames ficavam mais alterados.
Ah! A companhia no meio da noite… As companhias no meio da noite, as marginais, o combate à solidão. Festas artificiais, entorpecidas. Mesmo assim, não parava.
De dia, tocava saxofone sem parar. Era meu jeito de aguentar quando sabia que na manhã seguinte, o inferno me esperava. De noite, era outra história. Foram muitas, mas no fundo todas tinham algo em comum. Todos nós queríamos alguma coisa. E eu continuava. Continuava porque tinha medo de parar.
Era um medo parecido com o medo que ainda tenho de voltar pra Tunísia, meu país de nascimento. Um medo abstrato, de não me reencontrar, de me sentir mais despedaçado ainda. A Tunísia da minha infância era gostosa. Hoje, vivendo no Brasil, a milhares de quilômetros de lá, não sei mais que gosto ela tem. Na Tunísia da minha infância, tinha muitas coisas. Tinha o sol e o mar. Os cheiros de especiarias. Tinha turistas deambulando de biquíni na praia. Eu gostava de andar de bicicleta. Em casa, a gente falava francês. As guerras explodiam mundo afora e minha fé foi junto. Não sei de que deus estou falando, pois estou confuso com minhas origens. Na família, a gente dizia que tinha sangue misturado, tunisiano e francês. Quando me mudei pra França depois, alguém me perguntou: como pode ser francês se seu nome é Youssef?
Fugi da Tunísia pra França. Paris. Fugi do árabe pro francês. Quando não dava mais, fui pra Inglaterra. Me senti bem por um tempo. Agora era o inglês. Comecei a frequentar os pubs. Um dos meus preferidos era o Bullfrog. Horas e horas gastas lá. Dinheiro também. Acordei um dia num quarto de hotel no coração de Londres. A menina tinha saído antes. Deixou a metade do valor da diária.
Alguns anos depois, tive que partir. Era inevitável. Deixei meu apartamento de Baker Street, e fui pra Buenos Aires. Agora é o espanhol. Foi por um curto período, mas o suficiente para me arrepiar com o som do tango nas ruas. Lembranças de Paris, as longas caminhadas nos arredores de Notre-Dame. O vento que saía da grelha de ventilação quando passava na esquina da Rue Saint-Jacques. Batia na minha calça, sempre no mesmo lugar, e sempre me pegava de surpresa. Em Buenos Aires, andava com a Lorena que tinha conhecido num bar. Ela tinha um namorado. Quando ela me pediu compromisso, fugi.
Fugi pro Rio de Janeiro. Agora é o português. Minha filha nasceu, e eu continuei mesmo assim. Num quiosque da praia de Copacabana, tomando um chopp, ouvi um trecho de forró instrumental tocar. Um forró daqueles antigos. Chorei. Estava sozinho.
Tunes. Paris. Londres. Buenos Aires. Rio de Janeiro. Fui fugindo de país em país, de cidade em cidade, de língua em língua.
Depois do Rio, voltei pra Londres por um tempo. Naquela época, tomava cidra, era mais forte do que cerveja, e mais pro meu gosto. Quando me deixavam entrar, passava a noite no Road House. De vez em quando, saía acompanhado. Mas geralmente voltava pra casa sozinho.
Descobri que tinha um bar brasileiro lá, o Guanabara. Virou meu ponto fixo. A música brasileira, com suas síncopes e sua genialidade, não saía dos meus ouvidos.
A saudade bateu, da minha filha, do jeito brasileiro de viver, das casas que frequentava. Da solidão à brasileira. Fugi mais uma vez, pra Recife dessa vez. Na Sala de Reboco, tocava aquele forró pelo qual tinha me apaixonado no Rio anos antes. Uma noite dessas, conheci uma garota. Ela me ensinou que “não” pode querer dizer “sim”. Me ensinou o significado de “homem 0800”. E fiquei sabendo que as mulheres têm uma grande vantagem sobre os homens: como usam salto alto, não precisam pisar no mijo no chão dos banheiros públicos.
Enquanto isso, eu continuava.
Tunes. Paris. Londres. Buenos Aires. Rio de Janeiro. Londres. Recife. Fui fugindo de país em país, de cidade em cidade, de língua em língua. Depois teve São Paulo, Porto Alegre e Canoas. Nasceu meu filho e decidi ficar.
Mas continuei.
Quando precisei fugir, me refugiei na música. Depois do árabe, do francês, do inglês, do espanhol e do português, veio a música. Comecei a tocar e tocar, sem parar. Quando anoitecia, largava o instrumento e bebia sozinho em casa. A Larissa foi outra. Ela tinha um segredo que eu sabia. Seu corpo era uma fronteira que eu atravessava sem passaporte. Embriagado até o fundo da alma, não via que estava gastando dinheiro por uma ilusão.
A pele ficou mais irritada, os tremores se intensificaram, os exames cada vez mais alterados. Certa noite, desmaiei e bati a cabeça.
Muito sangue. Mesmo assim, continuei.
Na minha síncope, Lorena, a menina argentina, andava de biquíni e salto alto no Mediterrâneo. Ela falava inglês. O ar tinha cheiro de cominho. E eu, que ainda continuava bebendo, me sentia livre.
Tinha medo de parar.