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Escritas do Sul: Ensaios

Lopes Neto - Cicero Galeno Lopes

Lopes Neto nasceu em 1865 no interior de Pelotas. Aos 11 anos, foi pra cidade. Aos 13, foi estudar no Rio de Janeiro. Retornou a Pelotas sem ter terminado os estudos. Viajou a Uruguaiana em companhia do pai, que administrava uma das propriedades da família. Começou a escrever em 1888, no jornal A pátria, de Pelotas.


Foi escritor, professor, jornalista pecuarista, industrialista. Em 1906, publicou em jornal o conto de base lendária O Negrinho do Pastoreio, um dos textos mais lidos dele. Suas principais obras apareceram pouco mais tarde: Cancioneiro guasca (1910), Contos gauchescos (1912) e Lendas do Sul (1913). Faleceu em 1916, na cidade natal.


Outras obras conhecidas do autor: quatro títulos de peças teatrais (de que a profª Maria Alice muito sabe); Terra gaúcha (história e geografia do RS); Casos do Romualdo (contos hilariantes); um projeto de reforma ortográfica, rejeitado pelo ministério da Educação, porque propunha trocar, p. ex., ph (de phosphoro) por f.; Artinha de leitura (cartilha).


Localização teórica da obra de Lopes Neto


A produção literária de Lopes Neto tem sido justificadamente enquadrada, no âmbito da literatura nacional, na fase que os estudiosos brasileiros vêm denominando período literário pré-modernista. Justifica-se a classificação de período, e não de escola literária, porque falta à produção desse momento ideologia unificadora e porque, ao invés de convergência de estilos, os estilos se mostram divergentes. Isso não estabelece nenhum caráter de inferioridade ao período, com relação às escolas; ao contrário: no caso do RS, foi precisamente nesse momento que se consolidou nossa literatura, com caraterísticas que ainda se mostram vigentes. Foi nesse período, pois, que apareceu a obra de Lopes Neto (especialmente conhecida na tríade Cancioneiro guasca, Contos gauchescos, Lendas do Sul). No período pré-modernista, a literatura sul-riograndense fortaleceu-se também com o aparecimento do poema Antônio Chimango de Amaro Juvenal (Ramiro Barcelos); e as obras de Alceu Wamosy e Alcides Maya, entre outras.


Cancioneiro guasca


Denominam-se cancioneiros coletâneas de textos poéticos; textos poéticos para música; pautas musicais; repositórios de reservas de memória cultural de épocas e de culturas. Conforme se pode ler na introdução do Cancioneiro guasca, em que Lopes Neto justifica a publicação da obra, foi essa a razão de seu esforço para coletar e organizar esse material. O adjetivo guasca, que especifica o substantivo cancioneiro, é palavra oriunda do quíchua, chegado 2 ao português pelo espanhol platino: significa tira de couro cru, utilizada para vários fins, como corda.


Houve no Pampa uma era do couro. Muitos utensílios (até embarcações e habitações) eram feitos com esse material, facilmente obtenível, além de se prestar perfeitamente a confecção de arreios e vestuário. Por metonímia e por metáfora, o homem pampiano recebeu também essa denominação. Mais tarde foi (e ainda é) usada para designar o habitante do interior, no RS.


A desconsideração que geralmente se dispensa à obra


A crítica e, pelo silêncio que vem isolando a obra, também os leitores parecem tê-la abandonado. Preocupa a desatenção que ameaça encobri-la.


Outros cancioneiros, como o Cancioneiro da ajuda (séc. 13)


Não ocorre o mesmo descaso com relação a outros cancioneiros, como o lusitano Cancioneiro da ajuda. Esse conheci quando cursei Letras. Do nosso, porém, nunca ouvi falar no curso de Letras que fiz. Cheguei a pensar que se tratasse de equívoco meu, porque o conhecia desde os catorze anos de idade. Hoje sei que tem havido falhas no estudo e no ensino da nossa produção literária, que precisam ser reparadas. Temos dedicado, no curso superior, frequentemente, muito tempo a encobrir o que é nosso, nossa memória e nossa identidade.


A montagem do Cancioneiro guasca


O Cancioneiro guasca está dividido em dez partes: a 1ª é composta de duas páginas introdutórias, com esclarecimento sobre o motivo da obra e do título; a 2ª contempla Antigas danças, em que aparecem as conhecidas O tatu e Chimarrita; da quarta à décima partes, outras, variadas.


A primeira edição do Cancioneiro guasca é de 1910, pela editora Universal Echenique, de Pelotas; tem, portanto, cento e cinco anos. No exemplar que tenho, desde 1958, edição da (antiga e então brasileira) Globo, de 1954, o livro tem 268 páginas.


A herança honrosa


Augusto Meyer dedicou considerável tempo de seus estudos ao Cancioneiro guasca. Analisou-lhe as origens e pesquisou variantes, especialmente dos textos mais conhecidos. Publicou esses resultados no Cancioneiro gaúcho (1952), também na Coleção Província, da Globo.


Donaldo Schüler, em A poesia no Rio Grande do Sul (1986), reorganizou a distribuição de estrofes e partes de O tatu e de Chimarrita e, a partir dessas narrativas populares versificadas, como ele denomina esses textos, concluiu ponderadamente que a literatura do RS começou com eles. Isso não é pouco. Devemos o conhecimento desses textos parcialmente à coleta e à organização deles no Cancioneiro guasca.


Danças tradicionais gaúchas conhecidas atualmente, pelo menos parte delas, são tributárias do trabalho de Lopes e Neto.


Hoje se pode ler o CG integralmente também na internete, com possibilidade de acesso por partes, em, p. ex., <www.ufpel.tche.br/pelotas/cancioneiroguasca.html>.


Destaco quatro trovas (poemas completos em quadrinhas heptassílabas), a título de amostragem muito rápida:


[O encontro malogrado]

Menina, minha menina,

Vocemecê fez-me a boa:

Fez-me dormir no sereno,

Como sapo na lagoa.

[O que deu certo]

Chegaste, meu bem, chegaste,

Chegaste a bem boa hora;

O papai já ‘stá dormindo,

A mamãe deitou-se agora.

[Da mulher admirada]

Já vi chorar uma pedra

Pelo teu pé arredada:

Por tu passares por ela,

E ela não ser pisada.

[Da maledicência]

Por aqui passou um pássaro

De cores que nunca vi;

Todos falam e murmuram,

Mas ninguém olha pra si.


Contos gauchescos

A obra

Os Contos gauchescos apareceram em 1912, editados em Pelotas por Echenique, livreiros e editores, família proprietária da Livraria Universal. Contos gauchescos e Lendas do Sul, em conjunto, passaram a ser editados pela editora Globo de Porto Alegre a partir de 1926. Na edição de Contos gauchescos utilizada como base a este estudo, constam 19 contos.


O título


A leitura da literatura do Rio Grande do Sul produzida a partir da primeira metade do século 19 até à primeira metade do 20 provoca certa estranheza a respeito do título contos gauchescos. Por que gauchescos e não gaúchos ou de 4 gaúchos ou de gauchadas? Considere-se que sete anos antes da publicação de Contos gauchescos apareceu Recordações gaúchas, novela de Luís Araújo Filho, editada também pela Echenique. Isso permite aceitar que Lopes Neto conhecia a narrativa do escritor alegretense.


Essa observação leva a considerar que Lopes Neto tinha consciência da necessidade de retomar a história contada sobre a figura social do gaúcho. A história da palavra gaúcho está intimamente ligada à dos homens que ela nomeia. Essa história vincula-se à velha construção ideológica das línguas: o jogo do prestígio (dos poderes instituídos) em oposição ao desprestígio (das pessoas comuns). É de se supor o melhor: conhecedor do mundo rural dos gaúchos e que o vivenciou, teve como objetivo construir figura literária que pudesse honrar essa cultura, que ele via quase sempre desprezada. Investir na imagem do protótipo cultural significa investir também no imaginário; por consequência, na memória social. Bem sabia que os gaúchos, no sentido restrito, foram os construtores do que conhecemos hoje como Rio Grande do Sul.


Os possessores e depois proprietários das terras e de tudo que houvesse nelas entenderam necessário desqualificar o mestiço que os antecedeu no lugar, para dominá-lo e assegurar a propriedade, o domínio e o poder. Chamaram-lhe gaúcho, a que juntaram a classificação de figura perniciosa. É que esse mestiço usufruía dos animais xucros, soltos nos campos. Não tinha noção de propriedade. Era andarilho, seminômade. O nomadismo era conhecido da cultura de suas mães índias. O cavalo lhe permitia mobilidade. Os possessores precisavam assegurar para si a propriedade exclusiva sobre os animais (alçados) que não eram de ninguém. Era pois necessário que o gaúcho fosse conhecido como figura nociva. Desse modo, gaúcho passou a significar ladrão. Era ainda necessário designá-lo como peão, embora andasse montado, porque, na Europa feudal, só os muito ricos, ditos nobres, podiam montar e ter propriedade de terras. Assim, foi também chamado de peão (o que anda a pé), embora sua imagem cultural primordial seja a do centauro. O centauro é a representação mítica do pensamento aliado à força.


O esforço pela reconsideração da figura pode ser encontrado já no primeiro conto da coletânea, Trezentas onças. O patronímico gaúcho só é empregado, no conto, depois de a escala de valores dele ter sido pelo menos parcialmente exposta. Antes disso é chamado de vaqueano, tapejara e guasca: respetivamente, conhecedor de caminhos, senhor de caminhos (andante) e integrante da civilização guasca. (A expressão “civilização guasca” está empregada por Carlos Reverbel em O gaúcho, 1998, p. 18.) O título Contos gauchescos, portanto, parece sugerir alternativa de evitar conflito semântico: trata da vida gaúcha como gauchesca e evita apontar a figura humana com o termo gaúcho, antes de o personagem ter demonstrado valores positivos.


A apresentação de Blau Nunes


A página introdutória aos Contos gauchescos não tem título. Ela faz apresentação do personagem Blau Nunes, que na quase totalidade dos contos é também narrador. Marca o território da linguagem, do discurso e dos episódios que ele narra. Eis seu lugar e condição de fala. Por isso lhe é possível desconsiderar preceitos gramaticais de origem lusitana. Isso configura a afirmação e a consagração da linguagem própria da cultura dos gaúchos. Com ela fez grandes contribuições à renovação do discurso literário brasileiro.


O personagem Blau foi construído como protótipo. Nos seus limites se lê a formação moral do homem gaúcho da Campanha, de onde derivou a cultura peculiar aos gaúchos, cultuada por muitos. Está contido no discurso de Blau o universo social desses homens, a que se tem acesso pela formulação da escala de valores do protótipo.


A elaboração do nome Blau Nunes está demonstrada liminar e subliminarmente no texto de A salamanca do Jarau, narrativa de base lendária presente em Lendas do Sul (1913), do autor.


Os contos


Trezentas onças, conto de abertura da coletânea, é peça referencial da obra de Lopes Neto e da literatura. À primeira palavra da narrativa se antepõe um travessão. A palavra que o segue é o pronome eu, que reforça a ideia de que a palavra é do narrador apresentado na introdução. Fica reforçada também a consideração do lugar e da condição de fala do narrador: ele é voz do campo e do galpão e não deve ser confundido com o proprietário de terras. Como tal, terá formas próprias de expressão e comunicação. É possível verificar-se que faz isso com coerência, veracidade e vivacidade. Conforme Basarab Nicolescu (2008, p. 113), há mais culturas que línguas. Por isso as culturas precisam de linguagens próprias, para suas estritas construções expressivas. Ninguém se expressa em formas alheias. A comunicação, ainda que parcial, é possível, mas não a expressão, que se expõe em particularidades.


O travessão de abertura poderia ter sido dispensado, porque a apresentação termina com – “Patrício, escuta-o!”, mas está aí anunciando a fala do personagem-narrador do conto. (Esse sinal gráfico haveria de aparecer 44 anos depois, na entrada do discurso de Riobaldo em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, que aprendeu a falar com Blau.)


Ao longo dos episódios que Blau vai narrando, vai sendo construída a figura fulcral, o gaúcho. O universo que ele habita está exposto nas referências ao ambiente físico, aos animais, aos sentimentos, ao imaginário e aos conhecimentos que demonstra.


Por meio de recurso impressionista, o narrador, nos cinco parágrafos em que descreve o anoitecer, enquanto vai em busca do dinheiro extraviado, revela como o que se passa no mundo exterior lhe ocorre de modo análogo no interior. Esse recurso marca a interação entre o ser humano e seu ambiente. Podem-se 6 destacar ainda recursos estilístico-sugestivos, como o polissíndeto habilmente elaborado no parágrafo a seguir:


Durante a troteada bem reparei que volta e meia o cusco paravase na estrada e latia e corria pra trás, e olhava-me, olhava-me, e latia de novo e troteava um pouco sobre o rastro; – parecia que o bichinho estava me chamando!...


Esse polissíndeto suscita ao leitor o cuidado que deve ter na percepção das imagens da sequência das ações: elas estão temporizadas, espaçadas e encadeadas.


A palavra patrício, mais de uma vez usada no conto, cuidadosamente escolhida para ser a primeira usada na introdução, reforça a condição da unificação da pátria, após a Revolução Farroupilha, que acabou por definir o Rio Grande do Sul como brasileiro. A palavra gaúcho só aparece mais adiante, quando já a escala de valores da figura está parcialmente montada. O conto destaca alguns valores constitutivos da figura social do gaúcho. Entre eles, a honestidade, a gentileza, a coragem, a cordialidade, a comunicação cósmica no ambiente que lhe é propício, os lances de sabedoria. O que talvez possa causar surpresa é o fato de o gaúcho chorar diante de fato irremediável, causado por erro cometido. O erro provocaria suposição de desonestidade. Pontualmente, o sofrimento foi gerado pelo fato de ele, Blau, poder vir a ser considerado ladrão. Lembremos que essa foi precisamente a pecha que os gaúchos primitivos tiveram dos senhores das terras, dos animais e das gentes.


Chama a atenção ao se ler o conto, ainda, o fato de o narrador, em momento de angústia decorrente da incerteza, ao ver as primeiras estrelas do anoitecer, lembrar-se (nesta ordem) dos filhos, da mãe e do pai dele, mas não menciona a mãe dos próprios filhos. Talvez isso cause surpresa a quem não tenha familiaridade com a solidão e com o silêncio dos campos nem com a vida dos gaúchos do galpão. Esse é ambiente viril. Em geral, os gaúchos vivem sós. Às vezes, em decorrência da condição de emprego, acontece de um ou outro ter mulher no ambiente, mas para a maioria isso é incomum. Os filhos de Blau, portanto, são filhos do pai. A imagem mítica da Teiniaguá ronda o imaginário masculino gaúcho: a mulher representa a fixação do andejo, a necessidade de ter rancho e emprego fixo. Vale dizer: representa a negação da liberdade mítica do gaúcho primitivo histórico e (também) mítico.


Outro aspeto a considerar é a pobreza do personagem-narrador do conto. Ele se diz pobre, mas tem pequena extensão de campo, bovinos e cavalos. A venda de parte dos bens que menciona seria suficiente para pagar pelo extravio das trezentas onças. O Blau que é apresentado em A salamanca do Jarau (Lendas do Sul) tem quase nada: cavalo, facão e as estradas.


A respeito de Trezentas onças, cabe finalmente destacar o episódio do fim da narrativa, em que o patrão recebe os tropeiros “na sala”. Blau acabara de 7 soltar o cavalo e entrava no espaço em que se encontravam os outros recémchegados e o patrão. “Corria o amargo”. Leia-se aí, nas entrelinhas, a democracia dos campos gaúchos, defendida por uns e contestada por outros.


Em O negro Bonifácio, segundo texto da coletânea, a abertura ainda marca a especialidade do discurso de Lopes Neto nos contos: a criação da ambiência de oralidade. Não o faz agora com travessão. O conto se abre com pontos de reticência. A palavra (se) que vem imediatamente após o sinal de reticência está grafada com inicial maiúscula. O leitor a lê, então, como inicial do período. Vale dizer: alguém hipoteticamente perguntou como era Bonifácio. Isso leva o leitor a concluir que o início do conto não é o início da conversa: o conto todo é, portanto, complementação de conversa ou epílogo de relato. Os pontos de reticência iniciais sugerem a conversa anterior ao que se lê no conto. “... Se o negro era maleva? Cruz! Era um condenado!... mas taura, isso era, também!” O narrador usa formas caraterísticas dos causos, como “Escuite” (quatro vezes); “Patrício, escuite!”. Trata-se de enredo de violência, paixão e morte. Nem por isso, no entanto, o texto abandona a delicadeza de contar. Tudinha é a personagem que centraliza os olhares de alguns homens. Tinha olhos que “[...] pareciam que estavam sempre ouvindo... ouvindo mais que vendo...” A observação sobre as mulheres parece revelar a zona de sombra do mito da Teiniaguá.


No manantial, terceiro conto do livro, é outra narrativa que envolve amor, violência e morte. Tem como símbolo do amor uma roseira sempre florida, de cor vermelho-sangue, que reverbera no pântano. Nesse conto, mais uma vez se evidencia a precisão discursiva que o autor pelotense empresta ao narrador, como se pode ver no substantivo do título do conto. Manancial, em português, é fonte. Manantial, em castelhano, também o é. Na fronteira do Rio Grande do Sul com os vizinhos platinos, zona de origem das culturas gaúchas, manantial é diferente de manancial: manantial aí é pântano. O título do conto remete a essa acepção.


No manantial tem marcas românticas, encontráveis, p. ex., nas noções de amor cúpido, que um dos personagens (que representa o mal) dedica à moça disputada, Maria Altina. A morte sofrida do personagem mau, narrada como antítese maniqueísta, está presente desde o início do Romantismo. (Assim, grande parte dos contos chamados de infantis.) No manantial também, a exemplo de Trezentas onças, abre a narrativa com travessão, mas é narrado por “[...] este seu criado Matias”. A não ser que se considere que Blau repete a narrativa de Matias, este é o único conto da obra que não é narrado por Blau Nunes.


O mate do João Cardoso sugere uma conversa entre duas pessoas, mas se completa com a mesma técnica dos demais contos: uma poderosa voz narradora assume a prosa.


Deve um queijo!... mantém a técnica da voz única, mas o travessão fica reservado às entradas de vozes em diálogo, reproduzidas pelo narrador. O 8 enredo do texto focaliza o confronto entre gabolice e presunção, de um lado, e sisudez e modéstia, de outro. Carrega, pois, na base ideológica, longa tradição das narrativas pedagógicas e morais.


O boi velho é outro conto marcado pela moralização. Os focos são a gratidão e o amor.


Correr eguada põe o leitor diante duma atividade dos primórdios da cultura dos gaúchos. Sobressaem a virilidade e o destemor caraterísticos das atividades campeiras. Notam-se também ações violentas: diversão aos homens; sofrimento aos animais. Há, portanto, correlação ideológica entre este conto e o imediatamente anterior.


Chasque do imperador é um dos raros em que o narrador tece algum autoelogio, mesmo sem desconsiderar a ressalva que o narrador faz sobre si: “[...] tirante eu – uma indiada macanuda, capaz de bolear a perna e descascar o facão até pra Cristo [...]”. Esse tipo de técnica em narrativas orais, de galpão, ainda atualmente é possível ser encontrado. Destaca-se também por ser, até aqui, na sequência de apresentação dos contos, o primeiro cuja narrativa aparece datada: 1865.


Em Os cabelos da china, Blau conta estranho episódio, em que o personagem Juca Picumã domina a sequência narrada, por sua figura e pelo inusitado do tema que dá título ao conto. A narrativa tem pequena introdução, na mesma palavra de Blau, e depois reata o assunto proposto no título. A figura feminina da história está sinalizada pelo poder de sedução e pela inconstância amorosa.


Melancia – Coco Verde trata de outro caso de amor, mas sem violência provocada por atitude feminina. Além de desenvolver o tema dos casais apaixonados, que sempre encontram maneira de realizar seus desígnios amorosos, o texto conta a história da formação social gaúcha a partir dos portugueses aqui chegados. “Galego naquele tempo era gente, vancê creia! Estância era dele; negócio era dele; oficial era só ele; era arrematante das sisas (imposto, fraude) ele; surgião (cirurgião?), ele; padre-vigário, ele; e pra botar a milicada em cima dos continentistas... era ele!...”


O anjo da vitória focaliza guerreiros, na memória de um menino pobre, que segue o “padrinho”, que intitula o texto. Embora verbalmente enalteça a guerra dos homens do Pampa, o sentimento que fica é o da tristeza, do chão arrasado.


Contrabandista retoma, aparentemente na tentativa de completar o que foi narrado em Melancia – Coco Verde, questões da formação histórica do Rio Grande do Sul. O núcleo temático é a ação em busca de objetos para o casamento da filha de Jango Jorge, o contrabandista, mas a maneira de viver por si próprio do povo continentino é o que sustenta a força da narrativa. Se antes denominou “galego”, agora, com vinco mais irônico e menos sarcástico, designa o poder como “el-rei nosso senhor”.


Entre apostas, culos e sortes, joga-se a china. É o que se lê em Jogo do osso. A aposta de um dos competidores é a própria mulher; a do outro, um cavalo.


Outra referência na cultura gaúcha do Brasil é Duelo de farrapos, sob os pontos de vista estilístico e ideológico. O episódio central é breve: um duelo a espadas. Os recursos narrativos, contudo, ampliam as reflexões. É um contar fulgurante. A narração e as digressões, como em outros casos já comentados, tecem o destino dos homens. O ideário não é menos amplo. Abrem-se caminhos reflexivos sobre valores. A ideologia que pontua o conto é a do pensar sobre o Rio Grande de então como reserva moral da memória coletiva. O primeiro destaque é a tentativa de consolidar a ideia de uma América própria, por oposição ao mundo dos galegos: não só ao domínio lusitano, mas a qualquer domínio estrangeiro, ou seja, de outra cultura.


Penar de velhos reflete sobre a experiência do campo, adquirida desde a infância, dignificada pelo sentimento de liberdade, e a educação doméstica dedicada aos jovens.


Juca Guerra (cacófato) discute a questão do merecimento e do prêmio que a vida pode oferecer. A estatura do personagem se aproxima da de Juca Picumã e da do próprio Blau. “Aquilo era pra ficar na coxilha, picado de espada, rachado de lançaços, mas não pra morrer como foi, aperreado em cima da cama, o corpo besuntado de unturas e a garganta entupida de melados e pozinhos de doutores!...”


O parágrafo-período transcrito é breve amostragem da concentração da qualidade do discurso dos contos. Concisão, precisão e originalidade são caraterísticas que os artistas da palavra escrita, em geral, buscam em seus textos.


Ainda se podem fazer outras observações sobre o fragmento. O demonstrativo (neutro) aquilo em geral é empregado, quando aponta a personagens, para designar rebaixamento de qualidade. Não é incomum tampouco ser usado na fala diária, pra designar pessoas, com esse mesmo desígnio. Aqui, contrariamente, aquilo é forma de enaltecimento.


Do ponto de vista ideológico, é de se destacar a passagem em que os campeiros se beijam, um em demonstração de amizade, outro também por isso e por gratidão. Do ponto de vista estilístico, é impossível não se perceber que o narrador trata conscientemente sua história como conto.


Estrutura e ideologia narrativas diferenciadas são empregadas em Artigos de fé do gaúcho. A extensão do texto não chega a duas páginas completas, dispensa enredo tradicional e epílogo.


Em Batendo orelha (competindo, emparelhando-se, comparando-se), homem e cavalo passam por sofrimentos análogos que os podem descaraterizar. Do nascimento à morte, ao invés de se somarem experiências 10 boas, sofrem prejuízos irreversíveis. Parece converter-se o conto (também com estrutura incomum, semelhante ao imediatamente anterior) em reflexão moral a respeito das aparências e das reais condições íntimas das pessoas.


Por fim, em O menininho do presépio, lê-se reflexão que foi corrente na literatura romântica: a liberdade na escolha do par de amor. Ideologicamente, o conto se fundamenta na condenação dos casamentos escolhidos por outrem, que não o próprio casal. A narrativa conclui-se pelo alinhamento da vitória do amor que irrompe no interior das criaturas humanas.


Comentários introdutórios ao conto de base lendária A salamanca do Jarau


Por lendas se entendem narrativas oriundas da cultura popular. As lendas nascem dialogicamente de múltiplas vozes, muitas vezes em espaços geográficos diversos e em situações históricas diferentes. Elas têm fundamentos verídicos e geralmente incluem episódios misteriosos. É comum igualmente que contenham elementos míticos. O texto comentado agora, pelas razões antes expostas e pelos fatos de ter autor definido, ter sido composto sobre o papel, captado da oralidade, com narrador ficcional, composto com requintes de arte narrativa planejada, não precisa (talvez nem deva) ser classificado como lenda, mas como conto de base (ou fundamentação) lendária.


No título se expõem elementos fundamentais que encaminham à leitura do texto. A palavra salamanca se origina de forma de saudação árabe (as-salamhalaic). Salamaleque (cumprimento em que há reverência a quem se cumprimenta) tem a mesma origem. Termo e significado chegaram à nossa língua pelo espanhol. Designa cova de rio, furna de barranca de rio, gruta natural. Designa também mistério, algo que não se explica com simplicidade ou não se esclarece na racionalidade comum. No caso do texto comentado agora, os dois significados são possíveis e coerentes.


O motivo pelo qual a palavra salamanca passou a designar significados relacionados a mistério se explica por choque de culturas. Os árabes dominaram a Península Ibérica durante setecentos anos. Deixaram lá muitas marcas culturais. Um dos domínios árabes era a alquimia (depois, química). Esses procedimentos alquímicos eram guardados em segredo. Como eram reservados, o termo ligou semanticamente esses segredos a mistérios, que se executavam em locais incertos, retirados da convivência social, como as furnas. Com relação ao mal, que algumas vezes surge em interpretações do conto, explica-se pelo fato de os árabes (mouros) seres maometanos, inimigos tradicionais dos cristãos, que se puseram maniqueistamente no lugar do bem, contra o mal dos não-cristãos, os maometanos.


O título, portanto, além de outros significados possíveis, diz algo como os mistérios da furna do Jarau, que se pode ampliar, depois de lido o texto, para 11 respostas mítico-lendárias; p. ex.: explicação de como este povo (gaúcho) chegou aqui? qual é a formação dele?


A construção estilística do texto o coloca em condição privilegiada, mesmo na obra de Lopes Neto, que se carateriza por destacado trabalho artístico. Está montado em decálogo, a lembrar sua condição de gênese da formação dos gaúchos. Assim também, os lances de sabedoria perpassam a narrativa e condicionam ampliada extensão cultural ao leitor. Eis por que – um dos motivos – é texto para ser lido atentamente.


Lendas do Sul


Lendas do Sul, com primeira edição em 1913, contempla dezessete narrativas. Lopes Neto dividiu-as em Lendas do Sul (3), Missioneiras (7) e do Centro e Norte do Brasil (7).


Das narrativas de Lendas do Sul, A salamanca do Jarau tem o poder de sempre e cada vez mais surpreender o leitor atento, pela geração de significados, pela habilidade da construção estrutural em que foi montada e pela impossibilidade de ser analiticamente esgotada. Essas razões me fizeram optar, devido à condição desta exposição, por citar (apenas) algumas passagens dessa narrativa.


Creio que interesse lembrar que a narrativa aparece nominada como O Cerro do Jarau, e, logo abaixo, A Salamanca.


Eis as passagens


1ª) [Parágrafo inicial.] Era um dia..., um dia, um gaúcho pobre, Blau de nome, guasca de bom porte, mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais, estava conchavado de posteiro, ali na entrada do rincão; e nesse dia andava campeando um boi barroso.


2ª) – [O boi barroso] anda cumprindo o seu fadário


[...]


– Vou no rastro!... – Está enredado!... (parte 1).


3ª) Só não tomou tenência que a teiniaguá era mulher (parte 2).


4ª) [...] Blau Nunes bateu o chapéu para o alto da cabeça, deu um safanão no cinto, aprumando o facão...; foi parando o gesto e ficou-se olhando, sem mira, para muito longe, para onde a vista não chegava, mas onde o sonho acordado que havia nos seus olhos chegava de sobra e ainda passava... ainda passava, porque o sonho não tem lindeiros nem tapumes... [...] (parte 2).


5ª) Tudo que volteia no ar tem seu dia de aquietar-se no chão (parte 3).


6ª) E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma coisa nova e esquisita: eu via com os olhos os pensamentos diante deles [...] (parte 3).


7ª) Eu sou a rosa dos tesouros escondidos dentro da casca do mundo (parte 4).


8ª) Por senha da vontade a boca não falou (parte 4).


9ª) [...] condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era bicho e mulher moura [...] (parte 4).


10ª) [...] os olhos do meu pensamento [...] recreavam-se na luz cegante da cabeça encantada da teiniaguá, onde reinavam os olhos dela, olhos de amor tão soberanos e cativos, como em mil vidas de homem outros se não viram!... (parte 5).


11ª) [...] seu amor de mulher, que vale mais que destino de homem!... (parte 5).


12ª) Alma forte e coração sereno! (parte 5).


13ª) [...] governa o pensamento e segura a língua: o pensamento dos homens é que os levanta acima do mundo, e sua língua é que os amesquinha... (parte 6).


14ª) Teiniaguá encantada! Eu te queria a ti, porque tu és tudo!... És tudo o que eu não sei o que é, porém que atino que existe fora de mim, em volta de mim, superior a mim... Eu te queria a ti, teiniaguá encantada! (parte 7).


Comentários finais


Todos os textos de Lendas do Sul são marcantes, mas, dentre eles, é impossível o estudioso não se deter, além de sobre A salamanca do Jarau, também sobre O Negrinho do Pastoreio (a partir de cuja narrativa muito se tem produzido na literatura, na música, na escultura, na pintura, no teatro e no cinema; está pintada (por Locatelli) na sala principal do prédio-sede do governo do RS); sobre A mboitatá (também geratriz de muitas formas expressivas) e sobre O lunar de Sepé. Surpreende que esse texto não tenha aparecido no Cancioneiro guasca, porque se trata de um poema. O próprio Lopes Neto informa que tomou conhecimento dele em 1902, ou seja, oito anos antes da publicação do Cancioneiro guasca. Conta que ouviu a “melopeia” de uma idosa, já com dificuldades de lembrar e de articular o poema nas suas partes. Esse poema, no entanto, ajudou a perpetuar, juntamente com outras formas de manter a memória da cultura popular, a imagem do índio guarani Sepé Tiaraju como santo (i. é, protetor espiritual, místico e mítico). Charles Kiefer retirou de um dos versos de O lunar de Sepé o título para o romance Quem faz gemer a terra (1991).


A seguir transcrevo as duas estrofes iniciais de O lunar de Sepé


Eram armas de Castela

Que vinham do mar de além;

De Portugal também vinham,

Dizendo, por nosso bem:

13 Mas quem faz gemer a terra...

Em nome da paz não vem!

Mandaram por serra acima

Espantar os corações;

Que os reis vizinhos queriam

Acabar com as Missões,

Entre espadas e mosquetes,

Entre lanças e canhões!...


Referências


LOPES NETO, J. S. Contos gauchescos e lendas do Sul (1949). 2. ed. 4. impres. Prefácio por Augusto Meyer. Introdução por Aurelio B. de Hollanda. Posfácio por Carlos Reverbel. Porto Alegre: Globo, 1961.

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Bibliografia

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Cicero Galeno Lopes.

Dr em Letras

www.cicerogalenolopes.com


Obs.: Este ensaio foi lido em conferência na Universidade Luterana do Brasil, Câmpus Canoas, RS – em comemoração ao sesquicentenário do nascimento de J. S. Lopes Neto –18/6/2015.


Cicero Galeno Lopespes
04/09/2015

 

 


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